A salada R.E.M, Losing My Religion, Tarsem Singh e Caravaggio

Começo o primeiro devaneio maluco depois de assistir o vídeo da música “Losing My Religion, da minha banda favorita R.E.M. Esta canção composta pelo quarteto de Athens e lançada em 1991 nunca foi minha preferida, mas passou a ser uma delas após rever o vídeo e observar a letra.

O vídeo dessa música foi composta pelo diretor e cineasta indiano Tarsem Singh. Nunca ouvi falar, apesar de ter feito filmes, comerciais e etc. Você já deve ter visto o comercial mais famoso dele. Sim, VOCÊ VIU! Foi aquele comercial da Pepsi inspirada em Gladiadores e que tinham como “gladiadoras” a Beyoncé, Pink e Britney Spears cantando “We will rock you”. Se não lembra, coloca no youtube que você vai lembrar.

Voltando à parte musical do Sr. Singh. Os dois videoclips que ele fez para mim não tem a menor graça. Todos extremamente chatos. E nem a músicas ajudam você ficar olhando os vídeos. Porém, eu não sei o que o nosso Corbijn indiano tomou, fez ou cheirou que ele produziu o vídeo um dos vídeos mais sagazes da história dos videoclipes mundiais. Tarsem Singh criou e o vídeo ganhou o VMA de 1991. E na época isso era grande coisa. Só não superior ao Grammy por razões óbvias.

O que tem de tão especial nesse vídeo?

O bom deste vídeo são as referências a Caravaggio

1ª) A primeira menção para mim é ao quadro “Tocador de Alaúde”. O guitarrista Peter Buck aparece em uma posição muito semelhante ao quadro, mas não idêntico se repararem nas vestimentas, no fundo do quadro e etc. Então é difícil dizer se é ou não é. Para mim é.

bucklute

2ª) A segunda possível menção é para “Adoração dos Pastores”, de 1609. Digo isso porquê é o único quadro de Caravaggio em que aparece um Jumento. Porém, nada remete ao quadro em si e seus personagens.

burro

3º) Esse agora é certeza. A cena que aparece aos 2:13 faz menção ao quadro “São Francisco de Assis em Êxtase”, de 1595. Caravaggio faz alusão à história do encontro do anjo com Francisco. O anjo desce do céu para após uma oração feita por Francisco em resposta à oração feita pelo santo para sentir a dor e o amor de Cristo. Aqui vai um trecho:

“De repente havia uma luz deslumbrante. Era como se os céus estivessem explodindo e espalhando adiante toda sua glória em milhões de cachoeiras de cores e estrelas. E no centro desse turbilhão estava um núcleo de luz ofuscante que brilhava das profundezas do céu com uma velocidade aterrorizante até que subitamente parou, imóvel e sagrada, acima de uma rocha pontiaguda na frente de Francisco”

anjo

No video do R.E.M, há uma inversão dos papéis. Quem segura o anjo seria o possível Francisco. Imagem bem diferente do quadro. Podemos fazer alguma alusão ao “Martírio de São Matheus” que no quadro o anjo estende a mão para Matheus.

mao

4º) A segunda menção é a obra “Ecce Homo”, de 1605. O quadro mostra Jesus sendo apresentado ao povo por Pôncio Pilatos e dizendo “Eis o homem!”. Ecce Homo. Em seguida, é colocada uma capa ou uma vestimenta real remontando à parte  em que diz: Salve, Rei “dos Judeus”João 19:3. A cena faz parte do evangelho de João, capítulo 19.

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5ª) A terceira menção é para “Incredulidade de São Tomé”, de 1602. O quandro trata da dúvida de Tomé. De acordo com o evangelho, Tomé não viu uma das aparições de Jesus, já ressucitado, aos apóstolos. Tomé diz: Se eu não vir as marcas dos pregos em suas mãos e colocar o meu dedo onde os pregos foram, e coloquei minha mão no seu lado, não vou acreditar. É daí que vem aquela frase “só acredito vendo”.

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6ª) A quarta menção é para “A Captura de Cristo”, de 1602. Apesar de não estar exatamente igual ao quadro, a cena é a mesma. Vocês podem reparar a moça à esquerda. A No vídeo, a parte onde tiram a peruca de Jesus eu não entendi hahahaha. Vale qualquer interpretação.

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7ª) A quinta menção é para dois quadros. A Flagelação de Cristo, de 1607 e Cristo na Coluna, também de 1607. No vídeo, uma pessoa joga uma pedra em nele.

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8ª) A sexta e última menção é para o “Tombamento de Cristo”, de 1603. Caravaggio tem como característica a expressão facial de suas personagens, mas nessa obra, os braços de Maria Madalena gesticulando aos céus e o braço de Jesus morto chamam bastante a atenção.

tomb

Ou seja, neste vídeo podemos dizer que há 6 menções exatas e mais 2 possíveis de alguma interpretação mais verossímil.

Quero ressaltar mais duas coisas. A primeira é que não entendo nada de arte asiática e muito menos de arte indiana, essa última, constante no vídeo e misturada com elementos ocidentais como São Sebastião (o menino com flechas). A segunda é sobre os homens que construíram àquela asa de ferro. Essa foi uma citação à Otto Lillenthal (1848-1896), um dos pioneiros do vôo e que fez diversos equipamentos com asas de ferro para planar pelos céus e assim saciar o desejo de voar do Ser Humano. Tanto que ele morreu em dos seus experimentos onde caiu de uma altura de 15 metros.

otto

Mas há uma grande dúvida. Os ferreiros que aparecem no vídeo são de um poster do início do século 20, creio eu. Não sei se alemão ou soviético, mas essa imagem deles não me é estranha e vou procurar mais sobre.

Resumo da obra

Losing My Religion, ao contrário do que Michael Stipe disse sobre a letra da música, conta uma história de descrença e racionalidade em relação à religião. Ao trazer Caravaggio para o vídeo, usando os elementos característico do pintor que são o jogo de claro-escuro, grande foco de luz no rosto dos personagens ou, então, no personagem principal, Stipe e Singh trazem também o primeiro pintor a mostrar o insólito e o tenebroso. O ser humano e seus extintos terrenos em contanto com o místico. Uma alegoria a nossas burradas e trapalhadas.

Caravaggio pode não ter “perdido sua religão”, mas humaniza e nos aproxima dos personagens bíblicos. Ao mencionar Otto Lillenthal e seus desejo de voar, a letra demonstra que perdendo sua religião, ou seja, perdendo o entendimento de que voar é apenas para anjos e para os animais oriundos da criação, a humanidade pode avançar e alcançar o seu limite e este não é mais o céu. Por causa do nosso incontrolável desejo de ir ao céu, chegamos aos jatos A380. Desafiamos os dogmas e alcançamos o céu. E se for necessário perder a religião para avançar, que assim seja.

Ficamos então com R.E.M

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